Lúcia: Oh filha! Vou sentir tanto a sua falta!
Eu: Para de chorar mãezinha! Eu vou ali mesmo!
Adalto: Entendemos filha, você precisa subir na vida. Mas promete nos ligar todos os dias?
Eu: É claro pai! Toda hora se possível!
Lúcia: Se cuida minha linda. E agradeça a mãe da sua amiga por te hospedar lá.
Eu: Agradeço sim.
Me despeço dos meus pais com um abraço a três e em meio a muito chororo. Entro no ônibus e dou um tchau pra eles pela janela. Foram 2 horas de viagem, desembarco na rodoviária e vejo Bia esperando por mim.
Bia: Amiga!! Que saudades!
Eu: Nem me fala! Três meses que nos formamos já. Senti falta. Mas tinha que passar esse tempo com meus pais.
Bia: Entendo. Animada pra nova vida?
Eu: Claro!
Entramos no carro dela e seguimos pra casa, quando eu estava na faculdade eu ficava numa republica, mas agora vou morar com a Bia até me estabilizar aqui no Rio e alugar um apê. Fui muito bem recebida pela mãe dela.
Valéria: Fique a vontade Lyz! Quero que se sinta em casa!
Eu: Obrigada dona Valéria.
Bia: Vem amiga! Vou mostrar seu quarto.
Subimos as escadas da casa dela, Bia tinha condições financeiras melhores que as minhas, a mãe dela recebe uma gorda pensão do pai dela que é deputado, eles são divorciados.
Eu: Mas esse quarto é enorme!
Bia: E só pra você!
Eu: Mas pelo amor de Deus amiga! Esse quarto é do tamanho do puxadinho que moro com meus pais.
Bia: Relaxa amiga! Depois você se acostuma.
Eu: Meu Deus! Tô atrasada!
Bia: Ah é! A entrevista!
Eu: Sim, eu marquei com a moça daqui a 1 hora!
Bia: E ela te conhece?
Eu: Ainda não, eu vi o anúncio pela internet que estavam precisando de uma assistente. Ai conversei com ela por email
Bia: É assim que começa! O bom que você adquire uma experiência né?
Eu: Verdade.
Bia: Vem, eu te levo.
Novamente entramos no carro dela e seguimos para a clínica onde eu iria ser entrevistada.
Bia: Vou te esperar no carro amiga. Boa sorte.
Eu: Obrigada!
Encaro a clínica e respiro fundo, peço a Deus pra me iluminar. Entro pela porta e sou atendida por uma secretária que me olha de cima embaixo, será que eu tava tão mal vestida assim, creio que não! Eu estava vestida de um terninho azul com um camisete branco por baixo e calça jeans. Ela mascava seu chiclete enquanto me olhava por cima daqueles óculos bregas dela.
-Posso ajudar?
Eu: Tenho uma entrevista de emprego marcada com a Dr. Suzana.
-Ah meu Deus!-Ela dá uma risada- Só a Dra. Suzana mesmo.
Eu: O que quis dizer com isso?
-Querida, não é querendo tirar suas esperanças, mas você não tem cara de trabalhar aqui. Tá mais pra uma empregada que tem que esfregar a barriga no fogão.
Eu: Sabia que você pode ser presa por racismo sua idiota? Mas não se preocupe, não vou te denunciar, já passei por coisas piores, o que vem de baixo não me atinge. Agora vai lá e chame sua patroa.
Ela faz uma cara de nojo, se levanta da mesa e entra na sala da Dra. depois de alguns minutos ela volta.
-Entra.
Assim eu fiz, entrei pela sala e uma moça estava sentada, mexendo no computador, aparentava ter uns 35 anos. Ela apenas me olha por cima dos óculos e pede pra que eu me sente, achei falta de educação dela não me cumprimentar.
Dra.Suzana: Seu diploma é bom, mas acontece que você ainda não trabalhou na área.
Eu: Mas eu posso aprender!
Dra.Suzana: Querida, eu preciso de uma pessoa experiente justamente por não ter tempo de ensinar nada a ninguém.
Eu: Mas a senhora me deu tantas esperanças de que eu seria contratada e...
Dra.Suzana: Mas não atinge o perfil que eu quero.
Eu: Ah sim! A senhora quer uma pessoa branca né? Pode falar o português claro, você é uma psicóloga deveria ser sincera.
Dra.Suzana: Acontece que os pacientes que atendo são de alto nível e...
Eu: E nunca iriam aceitar uma negra dos cabelos crespos né? Olha senhora, muito obrigada por me fazer perder meu tempo.
Me levanto da cadeira e saio da sala que nem um furacão, entro correndo no carro da Bia e começo a chorar.
Eu: Eu juro que tento ser forte amiga! Mas você sabe o quanto é ruim passar por isso?
Bias: Essas pessoas são umas idiotas! Não se preocupe, vamos achar uma coisa melhor.
(...)
Não, não achava nada, em todas clínicas que eu ia era uma desculpa diferente, mas na verdade ninguém me aceitava pela minha cor. Pensei que estávamos no século XXI. Parece que não.
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